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sábado, 6 de junho de 2026

A Maioria Silenciosa: Quando o Voto Deixa de Ser Escolha - Uma leitura tocquevilliana da crise de representação nas eleições brasileiras

 


Em 2022, 156,4 milhões de brasileiros estavam aptos a votar. Desse total, 37,9 milhões não escolheram candidato algum: 32,2 milhões se abstiveram e 5,7 milhões votaram em branco ou nulo. Somados, são 24,2% do eleitorado. Se incluirmos os 13,3 milhões que justificaram ausência, chegamos a 32,7% — um em cada três eleitores — que não manifestaram escolha ativa nas urnas.

Tecnicamente, a eleição foi legítima. O presidente eleito obteve mais de 50% dos votos válidos. Politicamente, porém, emerge uma questão incômoda: um terço do país se ausentou da escolha.

A pergunta não é apenas "quem ganhou". É outra, mais inquietante: até quando uma democracia funciona quando a escolha perde sentido para parte expressiva da sociedade?

 

1. O dado que o TSE mede, e o que ele esconde,

Abstenção de 20,5% foi a maior desde 1998. Brancos e nulos somaram 3,6% dos votos. O TSE registra o número, mas não a intenção. Para entender o alcance real da "não-escolha", é preciso ir além da ata eleitoral.

Pesquisas de intenção de voto às vésperas do segundo turno mostram que o "voto útil" predominou: 45% dos eleitores de Lula declararam votar "para o Bolsonaro não ganhar". Outros 45% dos eleitores de Bolsonaro votaram "para o PT não voltar".

Isso significa que 45% dos 66,4% de votos válidos foram anti-voto, não voto por convicção. Traduzindo: 29,8% do eleitorado total escolheu o "menos pior". Somando aos 32,7% que se abstiveram, anularam ou justificaram, temos 62,5% do eleitorado sem adesão positiva a nenhum projeto.

A maioria absoluta não escolheu. Apenas evitou.

 

2. Tocqueville já descreveu essa democracia

Em 1840, Alexis de Tocqueville alertou para um risco das sociedades democráticas: a manutenção das formas da liberdade com perda da substância.

"As nações democráticas conservam as formas da liberdade por mais tempo, mas perdem pouco a pouco a sua substância."

As eleições ocorrem, as regras são cumpridas, os resultados são legais. Mas o voto, para fatia crescente do eleitorado, deixa de ser instrumento de escolha para virar obrigação legal ou cálculo defensivo.

Tocqueville chamou isso de "despotismo democrático": um poder tutelar que não tiraniza, mas impede. Não proíbe a participação, mas a esvazia de sentido. O cidadão se retira da esfera pública não por censura, mas por cansaço. Prefere cuidar da vida privada a deliberar sobre opções que não reconhece como suas.

A "tirania da maioria" opera aqui de forma silenciosa. Não esmaga a minoria com violência. Cria um consenso tão estreito — a polarização entre dois blocos — que 62% do eleitorado se sente obrigado a participar de um jogo cuja regra principal é escolher o mal menor.

 

3. Não é apatia. É racionalidade diante da oferta

A interpretação fácil culpa o eleitor: "povo alienado", "não gosta de política", "desinformado". Os dados sugerem o contrário. O eleitor está informado o suficiente para saber que justificar o voto é mais racional que viajar 300 km para anular. Está informado o suficiente para usar o voto como veto, não como chancela.

O problema não está na demanda. Está na oferta. A crise não é de participação. É de representação.

Quando a escolha real é entre dois projetos que metade do país rejeita, a abstenção, o voto nulo e o voto útil deixam de ser desvio. Viram sintoma de uma democracia que funciona na forma, mas opera no vazio.

 

4. O risco não é o povo parar de votar. É o voto parar de significar

Ignorar esses números sob o argumento da "legalidade estrita" é normalizar o esvaziamento. Uma democracia não vive só de rito eleitoral. Vive de adesão.

A história mostra que regimes não caem no dia em que as pessoas param de votar. Caem no dia em que votar e não votar dão no mesmo para a vida prática do cidadão. Quando a maioria silenciosa conclui que sua escolha não altera sua condição, ela não faz revolução. Apenas deixa de crer.

O Plano Real, em 1994, foi a última vez que uma medida de governo reconectou voto e vida material de forma imediata: estabilizou a moeda e devolveu ao eleitor o poder de planejar o mês. Desde então, a tutela — bolsa, crédito, isenção — substituiu o projeto.

Tocqueville chamou de "paixão pelo bem-estar". O cidadão abre mão da liberdade política desde que o Estado garanta conforto privado. O resultado é o que vemos: eleição plebiscitária sem plebiscito real.

 

Conclusão: Democracia não é só regra. É sentido.

O perigo não é a eleição ser questionada. É ela ser irrelevante. Quando 62% do eleitorado não escolhe por convicção, o presidente governa com legitimidade legal, mas sem legitimidade social.

Até quando um regime se sustenta quando a maioria obedece à regra, mas não adere ao jogo? Tocqueville, 184 anos atrás, deixou o aviso: sociedades democráticas não morrem de um golpe. Morrem de indiferença. Morrem quando o cidadão troca a praça pública pelo supermercado e descobre que o segundo resolve mais que o primeiro.

Normalizar isso não resolve. O primeiro passo é admitir o dado: a maioria já não escolhe. E fingir que isso é normal talvez seja o maior risco de todos.

 

Fontes:

TSE. Estatísticas Eleitorais 2022. Eleitorado, abstenção, brancos e nulos.

Datafolha. Intenção de voto para presidente, 20/10/2022. Critério "motivação do voto".

TOCQUEVILLE, Alexis de. A Democracia na América. Vol. 2, Parte 4, Cap. 6. Ed. Martins Fontes, 2005.

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